«Cláudia:
Inventei para mim um exercício gestáltico: imagino que sou uma câmara fotográfica.
Sou uma câmara com uma forma especial. Claro: sou única. Há muitas que se parecem comigo, mas nenhuma é como eu. Estou totalmente equipada para cumprir o meu objectivo: retratar este instante daquilo que está a suceder. Este instante....o instante anterior já passou e o próximo ainda não chegou; ambos estão fora do meu alcance....e gosto que seja assim.
Para ser uma boa câmara, o importante é conseguir uma boa imagem da realidade. O mecanismo é o seguinte:
Primeiro procuro aquilo que me chama a atenção
Meço a distância ue há entre mim e aquilo
Escolho uma distância útil. Nem sempre a distância que escolho é a ´mesma. Aproximo-me mais de algumas coisas, de outras mantenho-as sempre bastante longe.
Tenho uma película muito sensível e posso tirar muitas fotografias. Embora o rolo de película seja quase interminável, a minha vida útil como câmara não o é. Chegará um momento em que a minha existência há-de acabar. Pensar nisso não me angustia, faz parte do meu ser como câmara.
Entretanto, importa-me ser cada vez mais fiel àquilo que vejo. É certo: a minha imagem do exterior nunca será 'perfeita', mas, na realidade, tão pouco me importa que o seja.
Há coisas que os filtros deixam passar e coisas que não. É formidável! Mas, se me esqueço de que vejo as coisas assim devido ao filtro, também pode ser perigoso.
As lentes servem-me para aumentar ou diminuir o meu campo perceptivo.
Cada facto requer um tempo diferente para ser registado. Por isso, uma das coisas que regulo é o tempo de exposição. Quando preciso esperar muito tempo, recorro a um elemento que trago comigo: um tripé. Este permite-me aguardar que suceda o que espero, com comodidade, sem me apressar, sem ansiedade, sem risco de retratar uma coisa por outra.
Quase me ia esquecendo....Tenho uma tampa....
Quando a ponho, o mundo desaparecee estou somente em contacto comigo. É muito útil para me afastar um pouco do que está fora e também para descansar.
Só posso tirar uma fotografia de cada vez!
Qualquer tentativa de incorporar duas situações juntas produzirá uma sobreposição (imagem confusa) ou uma fotografia velada (falta de imagem).
Por sorte, ultimamente, consegui incorporar em mim um dispositivo de segurança que permite que somente depois de ter terminado o processo numa situação, possa começar outra.
Este dispositivo é de grande ajuda, mas eu prefiro ter sempre presente o limite por mim mesma»
in Cartas para Cláudia de Jorge Bucay
Tuesday, October 20, 2009
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1 comment:
está excelente e n conhecia !
obrigada por partilhares
bj
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