
«Um dia, quem sabe, ele vai olhar nos olhos dela e ver que estão calados.
Ela vai ficar sem assunto, vai querer ser delicada com a loucura dele, ele vai deixar que ela interprete mal a loucura dele, até confirmar nos olhos mudos dela o que a sua boca não falou.
Nessa altura ele vai “chorar”.
Vai “chorar” o amor deles que morreu à míngua.
Ele vai “chorar” sozinho no silêncio dela.
O silêncio da indiferença.
Que mata feito veneno de cobra, à traição.
Um dia vão tomar rumos desiguais, vão perder-se de vista e vão sobreviver.
Ele vai guardar-se no apego da lembrança dela, até perder a esperança dela, até não duvidar mais do fim deles os dois.
Mas ela não vai ser a mesma depois dele, vai ser mais desconfiada, mais astuta. Ele também vai ser diferente, vai distrair-se em outros corpos, vai coleccionar outros casos, vai passar o tempo, quem sabe lembrar-se dela de vez em quando, vai delirar com outras paixões, vai fazer outras promessas de amor, vai responder com um sorriso duvidoso, porque nem é sorriso de verdade.
É sorriso triste.
O sorriso da ironia, das coisas fingidas.
Um dia, quem sabe, ele vai lembrar-se dela com mais necessidade dela … pode ser que seja de manhã, ao acordar, pouco depois do almoço, mais provável à noitinha, se duvidar, vai ser de madrugada, quando ele começar a ouvir o silêncio que ficou no lugar dela.Silêncio comprido, aquela coisa sem fim, irremediável.
O silêncio do agora é tarde.
Agora é nunca mais.
Um dia, quem sabe, ele vai olhar nos olhos dela e ver que estão calados.»
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